Na última quinta-feira (4), o festival Olhar de Cinema iniciou suas atividades com a estreia do longa YellowCake (2026). Apesar da recepção calorosa do público, em grande parte pela presença da atriz Tânia Maria, popularizada por Agente Secreto (2025), o filme provocou opiniões bastante divididas, e majoritariamente decepcionadas.
YellowCake, ficção científica dirigida por Tiago Melo, acompanha a história da cientista Rúbia, interpretada por Rejane Farias (Marte Um), que trabalha na região de Picuí com um grupo de estrangeiros que extraem urânio para combater uma epidemia de Aedes aegypti.
O filme nasce de uma longa pesquisa do diretor sobre rumores que circulavam na cidade de sua família paterna, Picuí, na Paraíba. Em 2011, Melo lançou o curta documental Urânio Picuí, que investiga uma suposta presença americana na cidade durante a Segunda Guerra Mundial, quando teriam sido explorados minérios da região para a produção da bomba Little Boy, responsável pela tragédia de Hiroshima.
Dessa pesquisa surgiu a centelha do longa, e quem viu as duas obras percebe claramente as semelhanças: o cenário da caatinga, as feiras de rua, os moradores que relatam adoecimentos repentinos e tratamentos de quimioterapia atribuídos ao urânio, e a tradição de uma cidade que vive e respeita o minério.
Na coletiva de imprensa realizada no Cine Passeio, na manhã seguinte à exibição, o diretor afirmou que sempre foi fascinado pela presença americana em Picuí e pela forma como o povo nordestino se relacionava com os estrangeiros.
“Quando pensei em fazer cinema, a primeira história que quis contar foi a de Picuí. Sempre me encantou a questão nuclear e a presença estrangeira na região”, disse Tiago Melo, diretor de YellowCake.
Grande parte das críticas ao filme recai sobre o roteiro e sobre a dificuldade de desenvolver seus muitos personagens e conflitos. Confesso que, depois de ouvir o diretor explicar a origem de YellowCake e de assistir ao seu curta, as intenções do filme ficaram mais claras. Ainda assim, acredito que a tentativa de adaptar a história de Picuí para um longa-metragem de ficção científica tenha sido ambiciosa demais. Pessoalmente, fiquei mais intrigado com Urânio Picuí do que com o longa.
Mas Yellow Cake está longe de ser um fracasso. Há uma paisagem interresante, personagens carismáticos (mas pouco desenvolvidos) e uma proposta original dentro da ficção científica brasileira. No entanto, ao tentar abraçar tantas ideias ao mesmo tempo, o filme acaba dispersando sua força.


