Longa-metragem curitibano adapta o premiado “O Mez da Grippe”, de Valêncio Xavier
O passado está cheio de histórias abandonadas. Antigos jornais, documentos oficiais, filmes perdidos e memórias há muito não recordadas. Valêncio Xavier foi, para Curitiba, um colecionador, ou quem sabe até um acumulador, desses tempos passados. Agora, com a adaptação de seu livro “O Mez da Grippe” para um longa-metragem, a literatura e o cinema trabalham juntos para resgatar histórias do Paraná.
Estreando na mostra Novos Olhares do 15º Olhar de Cinema, em Curitiba, o filme dirigido por William Bagioli traz como ponto de partida a adaptação da obra de mesmo nome. Para quem não conhece o trabalho de Valêncio Xavier, é importante entender do que se tratam seus processos para compreender a montagem do filme.
Premiado com o Jabuti em 1999 por “O Mez da Grippe e Outras Histórias”, o livro se destacou pelo seu formato inovador. Xavier desmembra a narrativa tradicional ao contar histórias com recortes de jornais antigos, relatórios oficiais, anúncios de revistas, depoimentos de personagens e poesia. O texto e a imagem caminham juntos aqui.
E Bagioli traduz essa mesma linguagem para o audiovisual. O longa não é uma adaptação literal do livro. O filme toma a liberdade de criar dispositivos para dar coerência ao novo formato, como na criação do personagem por meio do qual vamos acompanhar a gravação de áudio: um professor universitário que, frustrado com uma pesquisa encomendada pela universidade, desvia o foco do trabalho para um tema de seu interesse, a gripe espanhola em Curitiba.
A partir daí, entre imagens de arquivo e cenas gravadas, acompanhamos os avanços dessa pesquisa, que desmembra memórias curitibanas de um tempo que o povo preferiu esquecer.
Um dos pontos mais interessantes do filme são suas imagens de arquivo. Durante o processo de pesquisa para o longa, o diretor descobre a existência de rolos de filmes guardados pelo próprio Valêncio na Cinemateca. Bingo! A solução para adaptar a obra está aí. Do mesmo modo que Valêncio recuperou documentos antigos para a criação de sua obra, Bagioli recupera o próprio Valêncio Xavier para a adaptação.
A película resgatada era um documentário, Pelo Paraná Maior (1927), utilizado para a divulgação do estado e como propaganda da gestão do governo de Caetano Munhoz da Rocha naquele período. Assim, enquanto acompanhamos o depoimento do professor e seus avanços na pesquisa sobre a gripe, imagens editadas de maneira experimental nos mostram uma Curitiba muito diferente da que conhecemos.
A mescla de formatos dentro do filme é interessante e necessária, pensando na obra que se propõe adaptar. Algumas das cenas gravadas com atores atualmente não conseguem passar a ideia de que foram gravadas em outra época, mas isso não necessariamente é um problema.
Uma das melhores surpresas que tive ao assistir ao filme foi a presença da artista Maria Paraguaya. Vocalista da nossa queridíssima banda Cigarras, a atriz interpreta um comercial antigo de um maquinário mirabolante para curar problemas respiratórios. Na coletiva de imprensa que aconteceu no Cine Passeio, o diretor do filme conta que, para ele, Valêncio foi fundamental para a construção de uma Curitiba mais rock’n’roll. Sendo assim, nada mais justo do que ter uma das maiores rockstars da nossa cidade no filme.
Desta forma, O Mez da Grippe dialoga com a linguagem da obra adaptada de maneira muito orgânica. Em vez de apenas reproduzir a narrativa do livro, o filme incorpora os procedimentos de montagem, colagem e resgate documental do autor. O resultado não é apenas uma adaptação, mas a continuidade de um trabalho de escavação da memória da cidade iniciado pelo próprio Valêncio Xavier.


