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Flora e Airto: a revolução continua

Provavelmente uma das estreias mais importantes desta edição do 15º Olhar de Cinema foi Flora e Airto: O Som Revolucionário (2026). O documentário retrata Flora Purim e Airto Moreira, músicos que ajudaram a revolucionar o jazz na década de 1970, mas que, por terem desenvolvido grande parte de suas carreiras fora do Brasil, acabam não sendo lembrados por aqui como deveriam.

A sessão contou com a presença do diretor Jom Tob Azulay, que possui uma extensa trajetória documentando a música brasileira. Entre seus trabalhos estão Elis e Tom: Só Podia Ser com Você (2022) e Os Doces Bárbaros (1978), registro da emblemática turnê de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa. Também esteve presente Ricardo Bacelar, diretor musical e “personagem” do filme.

É justamente essa dupla que torna o filme possível. Bacelar é uma peça fundamental no redescobrimento do casal. Além de dirigir musicalmente o projeto e o novo álbum gravado durante o documentário, ele atua como uma espécie de mediador entre os artistas e as demandas da produção. Afinal, por mais que continuem sendo músicos geniais, Flora e Airto também enfrentam as adversidades da velhice.

Como contou durante o bate-papo após a sessão, sua função era múltipla. “Eu não estava somente responsável pelo álbum, mas também pelo almoço, pela água, pelos cuidados da equipe, já que o estúdio fica dentro da minha casa e tudo acontecia por lá”, afirmou.

Mais do que lidar com a produção, Bacelar teve um papel importante no acolhimento dos artistas durante as gravações. Flora, por exemplo, além de enfrentar uma gripe durante o processo, também precisou lidar com questões relacionadas à autoestima e à cobrança de alcançar os mesmos resultados de quando era mais jovem.

Talvez um dos grandes triunfos do documentário seja justamente esse. Apresentar esses personagens pelo que são hoje em dia, sem comparações com o passado. Flora e Airto não são mais os mesmos músicos da década de 1970 que tocaram com Miles Davis ou participaram da trilha sonora de Apocalypse Now. Mas isso não os torna menores. Muito pelo contrário. Ver os dois entrarem nas músicas com tanta naturalidade, conduzindo arranjos e composições com uma fluidez impressionante, já próximos dos 90 anos, só reforça a dimensão de seus talentos.

O filme não tenta nos explicar quem são os artistas tim tim por tim tim ou provar que eles ainda são grandes artistas, isso fica evidente em cada ensaio, em cada conversa e em cada apresentação registrada pela câmera. O que parece interessar a Azulay não é a recuperação da história deles, mas o processo criativo desse novo momento. As histórias sobre o passado estão presentes, mas servem principalmente para contextualizar a construção de um novo trabalho.

Existe algo de Buena Vista Social Club em Flora e Airto: O Som Revolucionário. Ambos acompanham músicos idosos cuja importância acabou ficando para traz com o avanço da idade. Mas enquanto o clássico de Wim Wenders é marcado pela redescoberta de um passado, o documentário de Azulay está interessado na criação acontecendo agora.

O encontro promovido por Ricardo Bacelar também gerou outros trabalhos. Em 2026, ele e Airto Moreira lançaram Maracanós, álbum instrumental nascido justamente da convivência e das trocas criativas registradas durante esse período. Flora também participa do projeto na faixa Voo da Tarde.

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Coletivo voltado à cena underground curitibana, reunindo iniciativas de jornalismo, audiovisual e produção cultural.

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